Eu sempre conversei muito com a minha mãe. Depois que casei, ligava todos os dias, pelo menos uma vez no dia, pra saber as novidades e contar as minhas. Contava tudo pra ela. Com detalhes, mímica, vozes, encenação e o que mais precisasse, sempre fazendo uma palhaçada. Até ela rir. Nunca precisou muito.
Qualquer coisa que acontecesse, até as coisas mais bobas, eu passava a mão no telefone pra contar logo pra ela. Ainda hoje, me pego ligando pra ela pra contar alguma coisa que aconteceu. Aí eu lembro e ponho o telefone no gancho.
Quando comecei a fazer pilates, um mês depois que minha mãe morreu, sofri um tanto porque eu queria contar pra ela como era. Seria muito divertido reproduzir como eram os movimentos, os exercícios, a respiração. Eu faria algum dos movimentos exagerando e fazendo palhaçada. Ela ia rir, fechando os olhos e passando a mão pela boca. Depois diria “maluca”. Só isso. Maluca. Como só ela sabia dizer.
Depois, quando comecei as aulas de dança de salão, dois meses depois da morte dela, eu sofri muito por não poder contar. Acho que ela ia gostar muito de saber. Ela gostava de dançar. Lembro dos meus pais dançando em casamentos, formaturas, festas e até em casa. Eu achava tão bonito. Meu pai dançava lindamente todos os ritmos com os mesmo passos. Minha mãe acompanhava suavemente. Repousava a mão no ombro do meu pai de um jeito muito meigo. Ela tinha um jeito diferente de se mexer. Rebolava sutilmente, na medida certa. Quando comecei as aulas, percebi que eu danço igualzinho a ela. Os trejeitos são os mesmos. Seria tão engraçado mostrar isso pra ela. Eu daria uns passinhos com o meu pai pra mostrar como é igual. Ela ia rir, de novo fechando os olhos e passando a mão pela boca. Depois diria “você dança muito mais bonitinho”. Como sempre dizia quando alguém comparava nós duas.
Bobagens dos outros